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Bem-Vindo ao Pico do Petróleo

PICO DO PETRÓLEO corresponde ao período em que a máxima produção mundial é atingida, a partir do qual a extração em campos novos não consegue mais superar o declínio nos mais antigos. Decorre do fato do petróleo ser um produto finito e não renovável, tendo-se sempre que abrir novas jazidas para compensar o esgotamento das mais antigas e ainda para suprir os aumentos na demanda que ocorrem praticamente todos os anos, sustentando o crescimento econômico global. É de se esperar que algum dia seja atingido um valor máximo, o qual, então, não poderá ser superado. Após permanecer nesse patamar por alguns anos, a diminuição no volume total, irreversível, contínua e de longa duração, torna-se inevitável, afetando nossa civilização de forma drástica, embora ainda imprevisível. Mesmo com o aumento do preço do petróleo verificado a partir de 2005, o crescimento na oferta vem encontrando dificuldades progressivas. O aumento de produção não está mais respondendo às forças de mercado, e sim a fatores geológicos que limitam sua extração.

A nível local, o pico do petróleo já ocorreu em vários países, citando-se os Estados Unidos como o mais conhecido, atualmente um voraz importador. Sua produção tem estado em declínio constante desde 1970, ano em que ocorreu o pico, mesmo contando com os mais avançados recursos tecnológicos para a área petrolífera, assim como com a incorporação de novas áreas de exploração, como o Alasca. Existem métodos para prever-se a data provável do pico de petróleo, tanto a nível local como globalmente. No entanto, somente vários anos após ter se iniciado o declínio é que podemos saber com certeza quando ele ocorreu e qual foi o valor da máxima produção petrolífera atingida. Para os Estados Unidos, a previsão foi feita pelo geólogo da Shell M. King Hubbert em 1956 e mostrou-se correta. Por essa razão, o pico do petróleo também é conhecido como “pico de Hubbert”.

Compensar o déficit de produção de um país pela sobra de outro ficará cada vez mais difícil após atingido o pico a nível mundial, uma vez que a quantidade total de petróleo será sempre menor. Uma vez instaurado o declínio, as tensões entre países exportadores e importadores vão crescer sistematicamente, num mundo em que alguém vai ter que ficar sem o precioso recurso. O petróleo movimenta 95% dos transportes no mundo, sendo este, obviamente, o primeiro setor a ser afetado, além do sistema financeiro, que depende do crescimento econômico para alavancar suas operações de crédito.

Pelo mundo afora, a maior parte do petróleo mais fácil de ser extraído e refinado, aquele chamado de “petróleo convencional”, ou já acabou, ou está em fase de esgotamento ou tem sua produção apenas constante, sem possibilidade de aumento. É claro que existem ainda enormes reservas de petróleo não convencional, o problema é aproveitá-las de modo que os recursos financeiros, tecnológicos, materiais e humanos investidos tragam um retorno líquido. A mídia nos informa constantemente sobre novas descobertas, concentrando toda a atenção na quantidade encontrada, e não nas dificuldades de extração. Soluções tecnológicas cada vez mais complexas acabam por constituir parte do problema: mais tecnologia consome mais recursos para produzir menos energia. No dia em que, para se obter um barril de petróleo, precisarmos investir o equivalente a um barril, não vai mais valer a pena utilizá-lo, mesmo que ainda existam imensas reservas debaixo da terra. Muito antes do petróleo acabar, a era do petróleo já vai ter passado. Provavelmente, imensas quantidades continuarão enterradas sem que as utilizemos.

São poucas as áreas virgens onde se pode aumentar a produção rapidamente sem investimentos excessivos em tecnologia, como, por exemplo, no Iraque. No entanto, gastos com segurança, neste país, precisam ser tão altos que colocam em cheque toda a atividade. Hoje, compensar o declínio do petróleo convencional só pode ser conseguido em áreas politicamente instáveis. As demais áreas são de difícil acesso, como é o caso do petróleo brasileiro do pré-sal ou daquele do ártico.

Nos últimos anos, o consumo de energia, materiais, e mão de obra especializada tem crescido desproporcionalmente ao volume de petróleo obtido, indicando que, cada vez mais, nossa sociedade vai ter que desviar recursos de outras áreas para manter o seu padrão de vida, o que cria um paradoxo: a solução do problema aumenta o problema. Toda sociedade que fundamente sua existência no consumo de um produto não renovável acaba por vivenciar este dilema. Atualmente, 90% da energia consumida no mundo vem de fontes não renováveis, como petróleo, gás, carvão e urânio. Embora o petróleo apareça em primeiro lugar na lista de esgotamento, os demais também devem entrar em declínio nos próximos 20 ou 30 anos, pois seu consumo vai se acelerar quando a produção petrolífera começar a diminuir.

A solução, obviamente, é passar a gerar energia a partir de recursos renováveis e de forma sustentável, ou seja, mantendo-se a taxa de consumo igual ou inferior à de reposição natural. Neste caso, surge uma nova pergunta: poderemos manter mais de 6,5 bilhões de pessoas a partir de recursos renováveis, considerando a sustentabilidade? Haverá tempo, ainda, para fazer a migração, de forma organizada, de uma matriz energética não renovável, para uma renovável?

Para muitos analistas, o início do declínio da produção mundial deverá começar ainda nesta década, mais provavelmente a partir de 2015, e a resposta para as duas perguntas, infelizmente, é quase que certamente um grande não. Teremos que nos adaptar a uma dura realidade, onde a diminuição na disponibilidade de serviços e bens materiais vai ser uma constante por várias décadas, embora também com perspectivas positivas quanto às novas formas de organização social e econômica emergentes, assim como de nossa relação com o meio ambiente.


 
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